quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE EGUNITÁ

Trono: Feminino da Justiça

Linha: Justiça

Fator: Purificador (fator puro) e Equilibrador (fator misto)

Campos de atuação: Justiça e Lei

Elemento: Fogo (1º Elem.) e Ar (2º Elem.)

Polariza com: Xangô (par puro do Fogo e da Justiça); e também com Ogum (par misto Ar/Fogo da Lei e da Justiça)

Atributo: Justiça, Purificação

Ação: Consumidora, purificadora e energizadora

Cor: Laranja, dourado, vermelho

Fio de Contas: Feito de cristal ou de pedras laranja; ou bicolor laranja e vermelho; ou bicolor laranja/dourado.

Ferramentas: Taça, espada e caldeirão feitos de cobre

Ervas: Açafrão (raiz), agrião, alfavaca, arnica do mato, arruda, alecrim, artemísia, buchinha do norte, calêndula flor, canela, carapiá, chapéu de couro, casca de laranja amarga, cipó São João, comigo-ninguém-pode, erva de Santa Maria, eucalipto, guaraná semente, imburana semente, incenso resina, jurema preta, manjericão, manjericão roxo, mentruz, folhas de cânfora, folhas de laranjeira, folhas de limão, folhas de louro, fumo (tabaco), pára-raio, talos e folhas de cenoura, tiririca, urucum, menta, noz moscada, gengibre. Banho para energizar: Folhas de cenoura, calêndula e limão rosa (cf. Adriano Camargo).

Observação: Não se faz banho com o comigo-ninguém-pode e nem com a resina de incenso porque são tóxicos para a nossa pele. Ambos se utilizam apenas em defumações (e secando previamente as folhas do comigo-ninguém-pode, ao ar livre).

Símbolos: A espada; a estrela de 6 pontas cruzada ao centro; o raio

Ponto na Natureza: As pedreiras e os caminhos.

Flores: Lírio cor de laranja, girassol, begônia, flores do campo de cor laranja ou vermelha, rosas e palmas vermelhas.

Essências: Laranja, tangerina, cravo, canela, gengibre, rosa vermelha

Pedras: Ágata de fogo, topázio e calcita laranja. Dia indicado para a consagração: 3ª-feira. Hora indicada para a consagração: 23 horas.      

Metais e Minérios: Metal: Cobre.

Minério: Magnetita.

Dia indicado para a consagração: 5ª-feira. Hora indicada para a consagração: 17 horas

Chacra: Esplênico.    

Saúde: estômago, fígado, vesícula biliar e sistema nervoso

Portais de Cura: Calcita laranja (pedra), rodelas de limão cravo, velas laranja,  
velas vermelhas, carvão mineral e azeite de dendê (cf. Adriano Camargo)

Planeta: Sol e Júpiter.

Dia da Semana: 5ª-feira.

Saudação: “Kali-Yê, minha Mãe!”

Bebida: Licor de menta, suco de laranja, suco de limão, suco de tangerina, suco de gengibre.

Comidas: Caqui, manga, morango, tangerina, laranja, limão cravo, melão, mamão, mexerica, gengibre, moranga, cenoura, quiabo, fava vermelha.

Número: 09

Data Comemorativa: 24 de maio

Sincretismo: Santa Sara Kali, celebrada na Umbanda em 24 de maio.
Também sincretiza com Santa Brígida.

FONTE: http://www.seteporteiras.org.br/

DIVINDADES ASSEMELHADAS A EGUNITÁ

Héstia — Divindade grega (a Vesta romana) muito antiga e adorada como deusa do lar. Está presente no fogo da lareira, que é o centro do lar; sem ela não havia nem a comida e nem o calor que nos aquece no frio; ela é o próprio fogo. Protegia a família e a ordem social, também evocada para dar os nomes às crianças.

Kali — Divindade hindu “negra” da destruição e purificação. Representa o elemento fogo, com sua língua roxa. Não usa roupa e seu corpo é coberto por longos cabelos negros. Usa um colar de caveiras, tem quatro braços e leva em cada mão armas de destruição e uma cabeça sangrando. É a devoradora do tempo.

Enyo — Divindade da guerra em seu aspecto de “destruidora”, o que a remete a uma condição de Divindade da ­purificação.

Sekmet — Divindade egípcia (“a poderosa”) traz em si as qualidades de purificadora dos vícios e esgotadora daqueles caídos no mal. Representada por uma mulher com cabeça de leoa encimada pelo disco solar, representando o poder destruidor do Sol, é aquela que usa o coração com justiça e vence os inimigos.

Brighid — Divindade celta do fogo, seu nome significa “luminosa”. Filha de Dagda (o bom deus) tinha aspectos tríplices. Deusa da inspiração e poesia para os sacerdotes, protetora para os reis e guerreiros, senhora das técnicas para artesãos, pastores e agricultores. É também aquela que traz a energia, motivação e potência. Uma vida sem o calor de sua chama perde o sentido e torna-se insípida.

Shapash — Divindade babilônica, deusa do sol, a forma feminina de Shamash, muitas vezes chamada de “a tocha dos deuses”.

Lamashtu — Divindade sumeriana, “A filha do céu”, deusa com cabeça de leão (assim como Sekmet) que possuía imenso poder destruidor e purificador.

Ponike — Divindade húngara do fogo.

Pele — Divindade havaiana guardiã do fogo, é padroeira do Havaí. É ainda a senhora das manifestações vulcânicas. Tem como morada o vulcão Kilauea.

Si — Divindade russa, solar, evocada para punir quem quebrava juramentos.

Fuji — Divindade japonesa do fogo vulcânico, padroeira do Japão. Habita no monte Fujiyama, o mais alto do Japão, ponto de contato entre o céu e a terra.

Sundy Mumy — Divindade eslava, “Mãe do Sol”, ela é quem aquecia o tempo e dava força a seu filho Sol.

Oynyena Maria — Divindade eslava do fogo, “Maria do Fogo”, companheira do Deus do Trovão.

Ananta — Divindade hindu, Senhora do fogo criador e da força vital feminina. Seu nome significa “o infinito”, aparece como uma grande serpente e em muito se assemelha a serpente do fogo Kundaline, para muitos também uma divindade feminina do fogo.

FONTE: O livro “Deus, Deuses, Divindades e Anjos”, de Alexandre Cumino, Ed. Madras.

CRÉDITO DA PESQUISA: http://www.seteporteiras.org.br/

ALGUNS EXUS E POMBAGIRAS DE EGUNITÁ

Alguns Exus de Egunitá:
Exu do Fogo (de Xangô e Egunitá), Exu Folha de Fogo (folha = de Oxóssi; e fogo = de Xangô e Egunitá), Exu Corta Fogo (corta = de Ogum; e de Xangô e Egunitá = fogo), Exu Labareda (Xangô e Egunitá).


Algumas Pombagiras de Egunitá:
Pombagira do Fogo, Pombagira Fogueteira (de Egunitá e Iansã), Pombagira Machado do Fogo (de Xangô e Egunitá)

ALGUNS CABOCLOS DE EGUNITÁ

Caboclo Mata de Fogo (mata=Oxóssi; fogo= Egunitá), Caboclo do Fogo (de Xangô e Egunitá), Caboclo Pedra do Fogo (de Oxalá, Xangô e Egunitá), Caboclo Folha de Fogo (folha = Oxóssi; fogo = Xangô e Egunitá)

COZINHA RITUALISTICA DE EGUNITÁ

1- Fava vermelha: Cozinhe ligeiramente uma porção de fava vermelha apenas em água. Escorra. Em outra panela, refogue 1 dente de alho picadinho, 1 cebola picadinha e 1 colher de azeite de oliva (ou de dendê). Acrescente sal a gosto e refogue ligeiramente a fava já cozida. Decore uma gamela com tiras de cenoura e pedacinhos de gengibre, ou então com flores vermelhas ou de cor laranja, e aí coloque a oferenda.

2- Laranja com gengibre: Use 1, 3 ou 9 laranjas. Lave e seque as laranjas. Descasque, retire as sementes e reserve a casca. Corte cada uma das laranjas em 9 tiras ou pedaços.

Preparo: Faça uma calda (com água e açúcar), leve ao fogo e deixe começar a engrossar. Coloque as laranjas nessa calda para aferventar (uns 5 minutos) e acrescente gengibre em pedacinhos ou em pó. Retire. Sirva numa gamela (de madeira) forrada com as cascas de laranja que estavam reservadas (corte as cascas em tiras, ou em pedacinhos, como preferir). Decore com pedaços de gengibre.
Obs.: A mesma receita pode ser feita com limão, no lugar da laranja.

3- Moranga com peito de boi: 1 moranga; meio quilo de carne de peito de boi; tomate, cebola, dendê; meio quilo de fava vermelha; cheiro-verde, orégano.

Preparo: Cortar uma tampa da moranga e retirar as sementes. Lavar e cozinhar por uns 10 minutos (numa panela com água suficiente para cobrir a moranga). Reservar. Cozinhar a fava apenas com água, por uns 10 minutos. Escorrer a água e reservar a fava cozida. Refogar a cebola e o tomate picadinhos e ali cozinhar o peito de boi cortado em cubinhos, por uns 10 minutos. Acrescentar 1 colher de sopa de dendê e temperos (cheiro-verde, orégano), para finalizar. Colocar a carne na moranga e cobrir com a fava. Oferendar num prato de papelão forrado com folhas de cenoura (a rama da cenoura).

4- Feijão de corda: meio quilo de feijão de corda; meio quilo de quiabo cortado em rodelas; 1 cebola picada; azeite de dendê. 

Preparo: Cozinhar o feijão apenas em água, por 10 minutos. Escorrer e reservar. Refogar ligeiramente o quiabo com a cebola, o dendê e o feijão cozido. Colocar tudo numa gamela, ou num prato de papelão. Forre o vasilhame escolhido com folhas de agrião (ou com galhos de arruda) previamente lavadas. Colocar a oferenda e regar com dendê.

5- Sobre um punhado de folhas de arruda previamente lavadas e enxutas (ou sobre rama de cenoura), oferendar nove acarajés. Enfeitar com flores vermelhas ou de cor laranja, ou ainda com girassóis.

MODELOS DE OFERENDAS E QUANDO OFERENDAR A EGUNITÁ

Quando oferendar:

Para pedir ao Fogo Purificador que consuma energias negativas, vícios, excessos emocionais e cordões negativos que estejam envolvendo a nós mesmos e/ou aos nossos templos e moradias.

Modelos de Oferendas:

1- Fazer um círculo com 7 velas brancas, 7 vermelhas e 7 de cor laranja (ou amarelas). Dentro deste círculo, colocar rosas vermelhas (ou flores do campo vermelhas e/ou alaranjadas). Despejar um pouco de licor de menta dentro do círculo das flores. Cortar ao meio um maracujá e colocar as duas metades dentro do círculo de flores: uma com água e a outra com azeite de dendê (ou com azeite de oliva consagrado). Firmar as velas e pedir a bênção da Mãe Egunitá.

2- Um copo com licor de menta, um copo com água mineral e um copo com vinho tinto; 1 pemba branca e 1 vermelha; palmas vermelhas e flores cor laranja; 1 vela palito de cada uma destas cores: laranja, vermelha, branca, amarela e azul escuro. Fazer um círculo com as flores e no meio dele formar um triângulo com os copos das bebidas. Dentro deste triângulo, colocar as pembas. Circular tudo com as velas, dispondo-as de forma alternada (laranja, vermelha, branca, amarela, azul). Firmar as velas e fazer o pedido à Mãe Egunitá.

3- Velas de cor laranja, vermelha e dourada; frutas: laranja, tangerina, mexerica, laranja kinkan; bebida: licor de menta; flores vermelhas e laranja. (Do site do Templo da Luz Dourada, de Mãe Mônica Berezutchi.)

4- Do livro “Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada”, de Rubens Saraceni:

Elementos: um copo com licor de menta; um copo com água; 1 pemba branca, 1 pemba vermelha; 7 velas vermelhas, 7 velas douradas, 7 velas azuis, 7 velas amarelas e 13 velas brancas.

Montagem: Fazer uma cruz com as velas brancas, colocando 7 na vertical e 3 de cada lado, na horizontal.

No canto superior direito da cruz, colocar as 7 velas douradas. Isso vai formar um triângulo com as velas brancas do centro superior e as do braço direito superior (horizontal) da cruz. Dentro dele, colocamos o copo com licor de menta;

No canto inferior direito da cruz, colocar as 7 velas azuis. Isso vai formar outro triângulo, este com as velas brancas da vertical inferior e as do braço direito horizontal da cruz. Dentro deste triângulo colocamos a pemba branca. No canto superior esquerdo da cruz, colocar as 7 velas vermelhas. Elas vão se juntar às velas brancas da parte vertical superior da cruz e às velas brancas do braço horizontal esquerdo da cruz, formando outro triângulo de velas. Dentro dele, colocamos o copo com água;

No canto inferior esquerdo da cruz de velas brancas, colocamos as 7 velas amarelas. Isso vai formar mais um triângulo de velas. Dentro dele, colocamos a pemba vermelha.
Em seguida, cercar a oferenda com palmas vermelhas. Depois, saudar Mãe Egunitá e pedir a proteção almejada.

Sempre que oferendamos o Orixá Egunitá, antes devemos fazer uma oferenda à Senhora Pombagira do Fogo. Esta oferenda será posta à esquerda do lugar escolhido para a oferenda ao Orixá (ex.: 7 passos à esquerda), e com estes elementos: rosas vermelhas, velas vermelhas e champanhe rosê.

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE EGUNITÁ

No positivo: São pessoas ativas, emotivas, impulsivas, reparadoras, falantes e geniosas.
Apreciam as conversas reservadas; os espetáculos emotivos; as reuniões de estudo, de orações, políticas; a companhia de pessoas passivas e de homens que as incandesçam. Gostam de passear, de se vestir bem e com roupas coloridas ou de cores fortes.
Não apreciam pessoas presunçosas, arrivistas (inescrupulosas) e preguiçosas, bem como festas monótonas, conversas tolas, comidas insossas e bebidas adocicadas.

No negativo: tornam-se egoístas, briguentas, intrigantes, vingativas, insensíveis e teimosas.

IANSÃ-EGUNITÁ OU OYÁ-EGUNITÁ

Mãe Egunitá é a Divindade Cósmica assentada no pólo negativo (absorvedor) do Trono da Justiça Divina.

Na Umbanda, Egunitá é cultuada como o Orixá Cósmico que consome os vícios e desequilíbrios e faz a purificação dos templos religiosos, do íntimo dos seres e das suas moradas. Ela atua para nos defender das magias negativas e das injustiças, mas sempre a partir de uma autopurificação, para então nos renovar. Isto é, primeiro Ela faz uma purificação em nós mesmos, para nos renovar: purificação de conceitos e idéias antigas aos quais nos apegamos e que nos prejudicam; purificação dos nossos vícios de comportamento etc.

Mãe Egunitá nos traz uma face que faltava no estudo dos Orixás, como Divindade do Fogo Purificador e Renovador. Antes das informações trazidas por Pai Benedito de Aruanda, através da psicografia de Rubens Saraceni, não havia na Umbanda um estudo sobre um Orixá que representasse o Fogo da Purificação, o Fogo que destrói os desequilíbrios para trazer a renovação do ser. Esta renovação é justamente o aspecto característico da atuação de Mãe Egunitá e faz parte do seu culto, inclusive diferenciando-o de cultos anteriores, como veremos a seguir.  

O culto de Orixá vem da África, da cultura Nagô-yorubá. E nessa cultura não havia um Orixá que representasse a Mãe do Fogo. Falava-se numa “Iansã do Fogo” (Iansã-Egunitá ou Oyá-Egunitá) como uma Qualidade de Iansã, mas não se tratava de outro Orixá. Dentro dos Cultos de Nação, é muito antigo e de acesso restrito o culto de Iansã do Fogo, pois somente poderia ser praticado por uma menina virgem de 11 anos de idade, mediante oferenda específica, a qual exigia que se colhessem flores cortadas numa época determinada e dentro de alguns preceitos. Já na Umbanda o culto à Mãe Egunitá é bem diverso, dentro dos conceitos que Pai Benedito de Aruanda expôs. Primeiro, porque se trata de outro Orixá, de outra Divindade, não mais apenas de uma Qualidade de um Orixá já cultuado (no caso, Iansã). Depois, é preciso lembrar que essas Mães atuam de forma diferente: Iansã é movimentadora e direcionadora; enquanto Egunitá representa o Fogo Divino que consome os vícios e desequilíbrios, purificando e renovando os seres perante a Justiça e a Lei Divinas e lhes dando equilíbrio em todos os Sentidos da vida. Ou seja, “Iansã do Fogo” não é o Orixá Egunitá de que nos fala Pai Benedito de Aruanda. Pela mediunidade de Rubens Saraceni, Pai Benedito trouxe a informação de que no Astral se conhece uma Divindade Feminina do Fogo cujo nome sagrado não chegou ao nosso meio, mas que podemos chamá-la de Mãe Egunitá. Daí é que vieram o seu nome e o seu culto específico na Umbanda, como a Mãe do Mistério do Fogo.
Ainda dentro dos conceitos dos Cultos de Nação, outra Divindade Feminina que pode ser associada ao elemento Fogo é “Oxum do Fogo”, uma Qualidade da Mãe Oxum. Mas aí estamos falando de um “fogo líquido”, também diferente do Fogo Purificador de Egunitá, o qual tem o poder de consumir tudo no local onde se condensou.

Por outro lado, o sincretismo de Egunitá com Santa Sara Kali está ligado à idéia do “fogo destruidor” da Divindade Kali, cultuada na Índia. Mas o Fogo de Egunitá não apenas destrói negatividades e desequilíbrios: ele corta o que não é benéfico, mas para renovar, diferencial importante na atuação do Orixá Egunitá.

Para que Egunitá atue em nossa vida, basta que nos tornemos emocionalmente desequilibrados, irracionais, presos a conceitos que afrontam a Lei e a Justiça Divinas, e aí receberemos sua atuação Cósmica, para nos purificar e renovar. Seu Fator ígneo consome tudo ou retira o calor de tudo, resfriando o objeto sob sua atuação e paralisando seus desequilíbrios. Ela purifica os excessos justamente para renovar o ser.

Egunitá é associada ao Sol, ao planeta Júpiter e ao número 9.

Na Linha da Justiça, Egunitá polariza com Xangô. Formam um par puro do Fogo. Ele é o Pai e Ela é a Mãe desse Mistério. Mas há outras polarizações, que nascem da interação entre os campos da Justiça e da Lei: existe uma estreita ligação entre Justiça e Lei, pois quando se fala em Justiça logo se pensa na Lei que dá base para a atuação da Justiça; e quando se fala em Lei logo se pensa na Justiça que aplica a Lei. Pois bem.

Na Linha da Justiça da Umbanda temos o par puro do Fogo nos Orixás Xangô e Egunitá. E na Linha da Lei temos o par puro do elemento Ar nos Orixás Ogum e Iansã.  Xangô e Ogum são Orixás Universais e têm atuação passiva, isto é, irradiam de forma contínua e dão sustentação e amparo a todos os seres que vivem com equilíbrio os Sentidos da Justiça e da Lei, mas não forçam ninguém a isso. Já Egunitá e Iansã são Orixás Cósmicos e atuam basicamente atraindo os seres que se desequilibraram nestes Sentidos da vida, para corrigi-los e recolocá-los num caminho reto; embora também amparem aqueles que os vivem com equilíbrio. 

Esses quatro Orixás atuam de forma conjunta, entrelaçada, porque Justiça e Lei são inseparáveis. De modo que também formam pares mistos: a) Xangô com Iansã; e b) Ogum com Egunitá.  Iansã atua ao lado de Xangô como aplicadora da Lei nos campos da Justiça; e Egunitá atua ao lado de Ogum como aplicadora da Justiça nos campos da Lei. Portanto, Mãe Egunitá polariza com Xangô (par puro do Fogo e da Justiça) e também com Ogum (par misto Ar e Fogo, na Linha da Lei). O Ar de Ogum ordena, alimenta e expande o Fogo de Egunitá; e o Fogo Purificador de Egunitá consome e aquece o Ar de Ogum, de modo que se complementam.

Portanto, é na obra psicografada por Rubens Saraceni que encontramos o conceito e fundamentação sobre o Orixá Egunitá, a seguir resumidos:

Egunitá é nossa amada Mãe da Purificação. Regente Cósmica do Fogo e da Justiça Divina, é o Fogo que purifica os sentimentos desvirtuados, é a consumidora dos vícios e desequilíbrios e das energias dos seres fanáticos, apaixonados e emocionalmente desequilibrados.

Na África, Ela aparece como uma das Qualidades de Iansã; mas é em Si uma Divindade de mesmo nível, é Orixá.

Como Orixá Cósmico, Egunitá é sempre ativa e atuante no combate às magias negativas ativadas contra as pessoas, suas moradas e templos. Sua ação é fulminante. Sua energia é abrasadora e consumidora das concentrações energéticas negativas dos mais variados tipos (como formas pensamento, miasmas e larvas astrais), sendo temida pelos devedores da Lei e da Justiça. Em suas falanges de auxiliares incluem-se milhares de guerreiras da luz portadoras de espadas flamejantes, poderosos instrumentos no combate às trevas da ignorância. Nas linhas auxiliares da Esquerda a Pombagira do Fogo é uma de suas guardiãs trabalhando para as Linhas de Umbanda. Mesmo aqueles que não a conhecem, saibam que Egunitá os conhece e os tem como filhos; e se estiverem passando por dificuldades, diante da maldade gratuita, com certeza esta Mãe pode ajudá-los.

Egunitá e Xangô são Orixás Solares e formam um par puro do Fogo e da Justiça:

Pai Xangô é a chama que aquece o racional dos seres e abrasa os sentimentos íntimos relacionados com as coisas da Justiça;

Mãe Egunitá é o fogo da purificação, que consome os vícios e esgota o íntimo dos seres viciados.

Xangô gera o equilíbrio da Justiça;

Egunitá gera o fogo que consome os desequilíbrios.   

Xangô é a chama universal;

Egunitá é a labareda cósmica.

Xangô é o raio solar gerador de vida;

Egunitá é a chama solar que consome todos os elementos, em sua massa incandescente.
Xangô é abrasador;

Egunitá é incandescente.

Xangô é passivo e seu magnetismo gira para a direita;

Egunitá é ativa e seu magnetismo gira para a esquerda.

Xangô irradia-se em raios retos;

Egunitá irradia-se por propagação.

Xangô é irradiação contínua e chega a todos o tempo todo;

Egunitá propaga-se de forma Cósmica e suas fagulhas ígneas imantam tudo o que está desequilibrado, até se formar uma condensação magnética ígnea, com labaredas cósmicas que consomem os desequilíbrios, anulando sua causa e paralisando quem estava desequilibrado.

Lei e Justiça são inseparáveis e para comentarmos Egunitá temos de envolver Ogum, Xangô e Iansã, os outros três Orixás que também se polarizam e criam campos específicos nas Linhas da Justiça e da Lei.

Xangô e Ogum irradiam em linha reta (irradiação contínua, passiva ou Universal).

Iansã irradia em espirais (irradiação circular, ativa ou Cósmica).

Egunitá irradia por propagação (irradiação propagada, ativa ou Cósmica).

Xangô polariza com Iansã, e suas irradiações passivas se tornam ativas no Ar (raios).

Egunitá polariza com Ogum e então suas irradiações por propagação magnética assumem a forma de fachos flamejantes. Ogum lhe dá a sustentação do elemento Ar, que alimenta e também ordena as Irradiações de Egunitá como agente aplicadora da Justiça nos campos da Lei.  O inverso acontece com Ogum, que é passivo no elemento Ar e só se torna ativo no Fogo, que é o seu segundo elemento; pois o Fogo de Egunitá alimenta o Ar de Ogum, aquecendo-o e energizando suas irradiações.

Polarizada com Ogum, Egunitá aplica a Justiça nos campos da Lei Divina e consome os vícios emocionais e os desequilíbrios mentais que tornam os seres insensíveis à dor alheia e os transformam em tormentos para os seus semelhantes. As Divindades têm uma função a realizar, da qual nós sempre seremos beneficiários. Quando nos paralisam, Elas também estão nos ajudando, evitando que continuemos trilhando um caminho que nos conduzirá a um ponto sem retorno.

Há milênios existe na Índia o culto às Divindades Kali e Agni.  No panteão hindu, Agni é o Fogo no aspecto positivo e Kali é o Fogo em seu aspecto negativo (purificação das ilusões humanas).

Agni é o Fogo da fé e Kali é o Fogo das paixões humanas.

Agni é o pólo masculino e Kali é o pólo feminino.

Agni é passivo e irradiante e Kali é ativa e atratora.

Agni ilumina o ser e Kali o toma rubro.

Agni é o raio dourado e Kali é o raio rubro.

Agni é a serpente flamígea da Fé e Kali é a serpente rubra da paixão.

Agni é a chama que aquece e Kali é o braseiro que queima.

Recorremos às Divindades hindus Agni e Kali para mostrar como um mesmo elemento possui dois pólos, duas naturezas, duas formas de nos alcançar e estimular, ou então de nos paralisar; de acelerar, ou de paralisar nossa evolução; de estimular nossa fé, ou de esgotar nossos emocionais desequilibrados.

Agora, se colocarmos no lugar de Agni o nosso amado Orixá Xangô e no lugar de Kali a nossa amada Mãe Egunitá, teremos os mesmos aspectos divinos, mas irradiados por Divindades humanizadas em solo africano. Teremos a Linha pura do Fogo Elemental, cujas energias incandescentes e flamejantes consomem os vícios e estimulam o sentimento de justiça. As qualidades, atributos e atribuições de Xangô e Egunitá são estas: aplicar a Justiça Divina em todos os Sentidos da Vida.

Da leitura desse texto, podemos fazer uma observação:

Cada povo, cada cultura enfim, percebe ou entende e cultua as Divindades de Deus conforme a sua visão particular de mundo e de vida. Pois Deus não cria Divindades “especiais” para cada religião inventada pelo homem. Nós é que interpretamos a mesma Divindade ou o mesmo Mistério Divino de formas diferentes. Nenhuma religião é ”dona” das Divindades ou “dona da verdade”. Mas todas as religiões são igualmente importantes em agrupar pessoas com pensamentos e entendimentos afins a respeito do Criador e da Criação. No final das contas, cada um de nós “olha para Deus de baixo pra cima”, vislumbrando a Criação como podemos, a partir da nossa realidade humana e tentando entender tudo a partir dessa perspectiva. E por isso a nossa visão será sempre limitada. Há outras realidades, outras dimensões etc. Alguém já disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Apenas o Criador pode olhar o Todo de uma posição equidistante (e o desenho de um círculo com um ponto no meio representa isto: Deus, o Pai-Mãe de tudo e de todos, colocado na Criação numa posição igual para todos, a uma mesma distância, sem ter “privilegiados”).

Enfim, nem todos cultuam o Orixá Egunitá, mesmo na Umbanda. Muitos permanecem cultuando “Iansã do Fogo”. Haveria certo e errado, nessa questão? Pensamos que não. O importante é caminharmos no sentido de buscar um entendimento da vida e de nós mesmos, como algo que vai muito além da carne e dos sentidos físicos. Fazer isso de forma sincera, de todo o coração, e com amor pela nossa vida e pela Vida Maior. E sempre respeitando as crenças alheias. O importante é que os Orixás nos amam, nos conhecem e nos reconhecem como Seus filhos, independente do modo como nos dirigimos a Eles. Como Divindades de Deus, os Orixás zelam pela Criação desde sempre e para sempre. A maneira pela qual entendemos Deus e Suas Divindades não Os modifica, não modifica e não diminui o Poder de Deus e nem o Amor das Divindades para com todos os seres da Criação.

sábado, 27 de dezembro de 2014

CONVERSA ENTRE EXU E OXALÁ

O céu e a terra fundiam-se no horizonte distante, parecendo uma coisa só, como se não houvesse separação entre o mundo espiritual e o material, a consciência individual e a cósmica.
Sentado sobre uma pedra enorme na montanha, de cabeça baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fenômeno da natureza e refletia sobre o seu interminável trabalho.

- Como é difícil a humanidade – pensou em certo momento – parece nunca estar satisfeita, está sempre querendo mais e em sua essência egoísta desarmoniza tudo, tudo...Tudo que era pra ser tão simples acaba tão complicado.
Com os olhos habituados a enxergar na escuridão e na distância, Exu observou cada canto daqueles arredores.Viu pessoas destruindo a si mesmas através de vícios variados, viu maldades premeditadas e outras praticadas como se fossem atos da mais perfeita normalidade.Viu injustiças, principalmente contra os mais fracos e indefesos.Com seus ouvidos, também atentos a tudo, ouviu mentiras, palavras de maledicência, gritos de ódio e sussurros de traição.

Exu suspirou.

- Serei eu o diabo da humanidade? – pensou ironicamente, ao lembrar o quanto era associado à figura de demônio, passou horas observando coisas que estava habituado a ver todos os dias; mentiras, fraudes, corrupção, traições, inveja e uma gama enorme de sentimentos negativos.
Foi quando estava imerso nesses pensamentos que Exu ouviu uma voz ao seu lado, dizendo naquele tom austero, porém complacente:

-Laroyê, Senhor Falante.

Exu ergueu os olhos e vislumbrou a figura altiva de Oxalá.

-Epa Babá – respondeu Exu, fazendo um pequeno movimento com a cabeça, em sinal de respeito.

-Noto que está pensativo amigo exu – falou Oxalá.

Exu respirou fundo, contemplou novamente o horizonte e respondeu:

-Trabalhamos tanto...e incansavelmente, mas os homens parecem não valorizar nosso esforço.

Oxalá moveu os lábios para dizer algo, mas antes que isso acontecesse, Exu, como que prevendo o que seria dito, continuou:

-Não falo em tom de reclamação, sou um trabalhador incansável e o amigo sabe disso, é com prazer que levo o que tem que ser levado e retiro o que deve ser retirado, é com satisfação que abro ou fecho os caminhos, de acordo com a necessidade de cada um, é com resignação que acolho sobre minhas costas largas a culpa do mal que muitos espíritos encarnados e desencarnados fazem, para mim não existe frio ou calor, cansaço ou preguiça, existe apenas a necessidade de cumprir a tarefa para qual fui designado.

-Se mostra tão resignado e, no entanto, parece que deixa se abater pelo desânimo – comentou Oxalá, apoiando-se em seu paxorô.

Exu soltou uma gargalhada, ao que Oxalá deu um leve sorriso, com um movimento quase imperceptível no canto direito dos lábios.

-Não sou resignado nem tampouco estou desanimado – falou Exu – estou pensativo sobre pouca inteligência dos homens.Veja só: como responsável pela aplicação da Lei Carmica observo muita coisa.Observo não apenas o sofrimento que alguns homens impõem a si mesmos, mas vejo também as incessantes oportunidades que o Universo dá a cada um dos seres que habitam a Terra.O aprendizado que tanto precisam lhes é dada a oportunidade de aprender pela dor, mas geralmente só lembram a lição enquanto a dor está a alfinetar sua carne.Com o alívio vem o esquecimento e todos os erros e vícios voltam a aflorar.

Oxalá fez menção em dizer algo, mas com o dedo em riste entre os lábios, novamente Exu o impediu de falar.

-Ouça – disse Exu, colocando a mão em concha na orelha, como se ele e Oxalá precisassem disso para ouvir melhor.E ambos ouviram o som que vinha da Terra.O som da inveja, dos maus sentimentos, da maledicência, da promiscuidade, da ganância.Exu deu outra gargalhada e disse:

-Percebe?Temos trabalho por muitos séculos ainda.

-E isso não é bom?-perguntou Oxalá, que dessa vez não deixou Exu responder e continuou:

-Pobres homens, ignorantes da própria grandeza espiritual e da simplicidade do Universo, se não desconhecessem tanto o funcionamento das coisas, seriam mais felizes.

-Não estão preocupados em discernir o bem e o mal – resmungou Exu.

-E você está Senhor Falante? – tornou Oxalá.

Mais uma vez Exu gargalhou.

-Para mim não existe o bem ou o mal, existe o justo, bem sabe disso.

-Então por que tenta exigir esse discernimento dos pobres homens?

-Eu conheço os caminhos – respondeu Exu um tanto irritado – para mim não existe 
obstáculos, todos os caminhos se abrem em encruzilhadas, para mim as portas nunca se fecham e as correntes nunca prendem, conheço o sutil mistério que separar aquilo que chamam de bem daquilo que chamam de mal, não sou maniqueísta, não sou benevolente, pois não dou a quem não merece, mas também não sou cruel, pois sempre ajo dentro da lei.Os homens coitados, acreditam na visão simplista do bem e do mal, como se todo o Universo, em sua “complexa simplicidade” se resumisse apenas entre o bem e o mal.

-Pobres homens – repetiu Oxalá.

-Pobres homens – concordou Exu – mesmo olhando o Universo de uma forma tão simplista, dividido apenas entre bem e mal, acabam sempre demonizando tudo, achando que o mal é o melhor caminho para conseguir o que desejam ou então acreditam que são eternas vítimas do mal e o que é pior, quase sempre eu é que sou o culpado.

-Mas você é o responsável pelo mal? – perguntou Oxalá, admirando o horizonte.

-Sou justo, apenas isso – respondeu Exu.

-Não seria a justiça uma prerrogativa de Xangô? – tornou o maior dos Orixás.

Exu olhou no fundo dos olhos de Oxalá e respondeu:

-Estou a serviço do Universo, de cada uma das forças que o compõe, inclusive do Senhor da Justiça.

-Isso significa que trabalha em harmonia com o Universo caro Exu?

-Imaginei que soubesse disso – respondeu Exu, irônico como sempre.

-Acho que sempre soube, quando observo o horizonte e vejo o céu fundindo-se a Terra, percebo o quanto o material pode estar ligado ao espiritual, mas também lembro que o Sol vai raiar e acredito que apesar de todas as dificuldades que os próprios homens criam é possível acender a chama da Fé em seus corações, percebo o quanto eles são falhos, mas percebo também o quão são frágeis e precisam de nós – e nesse momento pousou a mão sobre o ombro de Exu – sejam dos que trabalham na luz ou na escuridão, pois tudo faz parte do Uno e se inter-relacionam, o mesmo homem que hoje estás nas profundezas mais abissais, amanhã pode ser o mensageiro da Luz.

Exu olhou para os olhos de Oxalá, como se não estivesse concordando, mas dessa vez foi Oxalá que não deixou que o outro falasse, prosseguindo com a sua narrativa:

-Se não fossem os valorosos guardiões que trabalham nas regiões trevosas, dificilmente os que ali sofrem um dia alcançariam o benefício da Luz, se houvesse apenas a Luz, não haveria o aprendizado, que tem como ponto de partida o desconhecimento, as trevas.O Universo tão simples é ao mesmo tempo tão inteligente, que mesmo nós, que observamos os homens a uma distância grande, às vezes nos surpreendemos com a sua magnitude.Os homens são frutos que precisam amadurecer e você, amigo Exu é a estufa que os aquece até o ponto certo da maturação e eu sou a mão que os colhe como frutos amadurecidos.

-Quem diria que trabalhamos em harmonia? – disse Exu em meio a um sorriso – acreditam que vivemos a digladiar quando na verdade trabalhamos em busca de um mesmo objetivo: o aprimorar da raça humana.

Oxalá só não soltou uma gargalhada porque não era esse o seu hábito, mas disse sem conseguir esconder o contentamento:

-Então companheiro Exu não temos porque lamentar.A ignorância em que vivem os homens é sinal de que ainda temos trabalho a realizar, a pouca sabedoria que possuem significa que ainda estão muito próximos ao ponto de partida e cabe a nós, não importa se chamados “direita” ou “esquerda”, auxiliá-los em sua caminhada, que é muito longa ainda.Apenas contemplar as mazelas dos corações humanos não irá auxiliá-los em nada.Sou a luz que guia os olhos da humanidade e você o movimento que não a deixa estática.Se pararmos por um segundo sequer, atrasaremos em séculos e séculos o progresso da raça humana, que tanto depende de nós.

Nesse momento o Sol começou a raiar timidamente no horizonte, separando o céu da Terra, Exu levantou-se da sua pedra e se pôs a caminhar montanha abaixo.

-Aonde vai, Senhor Falante? – perguntou Oxalá, como se não soubesse.

-Vou trabalhar Senhor dos Orixás – respondeu Exu gargalhando novamente – Esqueceu que sou um trabalhador incansável e que trabalho em harmonia com o Universo, mesmo que ele me imponha a luz do Sol?

Oxalá não respondeu, mas esboçou um sorriso tímido, assim trabalhava o Universo: Sempre em Harmonia, os homens, mesmo ainda presos a tantos conceitos primários, trilhavam os primeiros passos em direção ao progresso, pois não estavam órfãos de seus Orixás e protetores.

PRECE EXU TRANCA RUAS

AO MISTÉRIO TRANCA RUAS
FAÇO REVERÊNCIA A VÓS MISTÉRIO SAGRADO DA CRIAÇÃO, VÓS QUE SOIS A MANIFESTAÇÃO DO DIVINO, PELO QUE NESTE MOMENTO POSSA SE MANIFESTAR ENTRE NÓS, CONFORME NOSSO MERECIMENTO.
NO SEU PODER, NA SUA FORÇA E NA SUA MAGNITUDE, PELO CAMINHO TRIPOLAR QUE EMANA DE VÓS, PELO CAMINHO QUE SÓ VÓS CONHECEIS, PELA FORÇA QUE SÓ A VÓS PERTENCEIS E PELO PODER DE TRANCAR A VÓS CONCEDIDO.
EU PEÇO:
QUE AS TREVAS QUE HABITAM EM MIM SEJAM TRANCADAS; QUE O ÓDIO E O SENTIMENTO IMPURO QUE EMANA DA MINHA ALMA SEJAM TRANCADOS; QUE A DISSIMULAÇÃO E A SUPERFICIALIDADE QUE NASCE DA MINHA LÍNGUA SEJAM TRANCADOS;
QUE O EGOÍSMO E A MALDADE QUE TRANSCEDEM DA MINHA MENTE SEJAM TRANCADOS;
QUE A PALAVRA TORTA QUE SAI DA MINHA BOCA E O PENSAMENTO ROTO QUE SAI DA MINHA CABEÇA CONTRA O PRÓXIMO SEJAM TRANCADOS;
QUE A CAPACIDADE QUE OS MEUS OLHOS TÊM DE AMALDIÇOAR E DESTRUIR SEJAM TRANCADOS;
E ASSIM, FONTE PRIMÁRIA DA CRIAÇÃO, ASSIM QUE TRANCAR A TUDO ISSO NO SEU AMÂGO, POIS É NA VOSSA ESSÊNCIA QUE TUDO ISSO SE DESVITALIZA.
PEÇO A VÓS QUE:
DESTRANQUE TODAS AS PORTAS DO MEU CAMINHO;
DESTRANQUE TODAS AS PASSAGENS DA MINHA JORNADA;
DESTRANQUE TODA A PROSPERIDADE MATERIAL E ESPIRITUAL;
DESTRANQUE O MEU CORAÇÃO DAS AMARGURAS;
DESTRANQUE O MEU SUSTENTO DE CADA DIA;
DESTRANQUE OS MEUS CORPOS ESPIRITUAIS E MATERIAL DE AGONIA, DO DESESPERO E DA AFLIÇÃO QUE ME ASSOLAM NA CALADA DA NOITE;
DESTRANQUE O MEU EMPREGO, O MEU NEGÓCIO E A MINHA MORADA MATERIAL;
DESTRANQUE OS MEUS OLHOS PARA AS MARAVILHAS DO MUNDO ESPIRITUAL;
DESTRANQUE A MINHA LIBERDADE!
POIS VÓS, FORÇA SAGRADA DO DIVINO CRIADOR, É O PORTADOR SUPREMO DA VITALIDADE!
SALVE O MISTÉRIO
TRANCA - RUAS

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE OBÁ

Trono: Trono Feminino do Conhecimento

Linha: Conhecimento

Fator: Concentrador (fator puro) e Expansor (fator misto)

Atributo: Atua no Raciocínio e dá concentração

Sentido: Conhecimento

Essência: Terra

Elemento: Terra e Vegetal

Polariza com: Oxóssi

Cor: Magenta (a cor que dá estabilidade, firmeza e razão); também o verde junto com o marrom e o vermelho junto com o branco.

Ervas: As raízes em geral (porque nascem e vivem na terra, nos domínios da Mãe Obá); babosa, alecrim, manjericão, hortelã, dandá da costa (ou tiririca), aspargo, urtiga, folhas de abacaxi, salsa, imburana, folhas da abóbora, salsaparrilha, espada de Santa Rita, alho, golfo de flor (de qualquer cor), candeia, nega-mina, folha de amendoeira, alfavaca (obs.: a alfavaca é um tipo de manjericão), peregum roxo.

Símbolos: espada (idà), escudo e coroa de cobre e um ofá (arco e flecha).

Ponto na Natureza: Beira da Mata

Flores: rosas brancas, flores do campo, amor perfeito, rosas e palmas vermelhas

Pedras: Calcedônia, madeira fossilizada, turmalina verde, jaspe madeira. Dia indicado para a consagração: 2ª-feira- Hora indicada: 22 horas

Metais e Minérios: Cobre. Hematita. Dia indicado para a consagração: sábado- Hora indicada para a consagração: 15 horas

Saúde: o cérebro inferior, o olho esquerdo, os ouvidos, o nariz e o sistema nervoso.

Planeta: Urano

Dia da Semana: Quarta Feira

Chacra: Frontal

Saudação: "Salve a Divina Mãe Obá!" - Resposta: "Akirô Obá-Yê!";
Obá XÍ! ou Obá Xirê!.

Bebida: vinho tinto licoroso; água com hortelã macerada e adoçada com mel ou com açúcar; água de coco; sumo de hortelã, alecrim e manjericão; água mineral

Comidas: coco verde, romã, abacaxi, moranga, manga, ameixa preta, tangerina, maçã, amendoim, mandioca, cenoura.

Números: 7 e seus múltiplos

Data Comemorativa: dia 30 de Maio

Sincretismo:
Na Umbanda, Mãe Obá é celebrada no dia 30 de maio, sincretizada com Santa Joana D’Arc. No Candomblé, é sincretizada também com Santa Catarina.

Qualidades:
Obá Gideo
Obá Rewá

ALGUMAS COMIDAS RITUAIS DE OBÁ

Moranga com camarão: 1 moranga; 500g de camarão limpo; um maço de espinafre (ou de taioba, ou de mostarda); 01 cebola ; dendê.
Cozinhar ligeiramente a moranga inteira. Depois, abrir um círculo em cima da moranga, tirar a tampa e as sementes. Cortar a verdura em tiras, refogar com cebola, dendê e os camarões. Colocar o refogado dentro da moranga. Oferendar sobre folhas de hortelã fresca.

Moranga com frutas: Cozinhar ligeiramente uma moranga, tirar a tampa e remover as sementes. Dentro da moranga, colocar frutas, já cortadas e em camadas, assim: 1 pera, 1 maçã, 1 cacho de uva branca, 1 melão, 1 manga. Cobrir cada camada de fruta com açúcar cristal. A última camada deve ser coberta de açúcar. Oferendar sobre folhas de hortelã fresca misturadas com as sementes retiradas da moranga.

Abará: São bolinhos feitos com a massa de feijão fradinho já levemente cozido e temperado com um pouquinho de dendê.  Moldar os bolinhos, enrolar em folha de bananeira e cozinhar em banho-maria.

Acarajé: Massa: 500g feijão fradinho, 3 cebolas raladas, 1 colher de sopa de sal, 1 garrafa de dendê Deixar o feijão de molho de véspera. Retirar o olhinho preto e a pele dos feijões. Triturar. Temperar com cebola e sal. Bater bem, com colher de pau, até virar um creme. Reservar a massa para fritar.

Molho: 500g de camarão; 2 pimentas malaguetas, 1 cebola ralada, coentro fresco picado, 1 xícara de dendê. Misturar bem. Levar ao fogo por uns 10 minutos.

Fritar a massa às colheradas, em azeite de dendê quente, dourando os dois lados. Abrir os acarajés com uma faca e recheá-los com o molho.

Oferendar num prato de papelão forrado com folhas de alface. Ou colocar os bolinhos diretamente sobre folhas de verduras (alface, mostarda, taioba, etc.).

Ovos: Passar no azeite de oliva uma cebola picadinha, com uma pitada de sal, apenas para murchar. Quebrar ali alguns ovos, acrescentar mais um fio de azeite. Deixar fritar um pouco. Os ovos ficam com as gemas ligeiramente moles. Decorar com hortelã picadinha, cheiro-verde e orégano, a gosto. Colocar os ovos sobre um creme de mandioca cozida, amassada e passada ligeiramente no azeite de oliva com cebola picadinha. Oferendar sobre folhas de bananeira.

EXUS E POMBAGIRAS DE OBÁ

Alguns Exus e Pombagiras de Obá:
7 Raízes (de Oxalá/Oxóssi/Obá), da Terra (de Obá e Omolu), Treme Terra (Obá/Omolu), da Terra Roxa (Obá e Omolu).

CABOCLOS DE OBÁ

Alguns Caboclos de Obá:
Caboclo da Terra (de Obá e Omolu), Caboclo Raiz (de Obá e Oxóssi), Caboclo 7 Raízes (de Oxalá, Oxóssi e Obá), Caboclo Treme Terra (de Obá e Omolu), Caboclo Terra Roxa (de Obá e Omolu)

OFERENDA PARA OBÁ

Oferenda: 1 coco verde aberto (separar a água); a água do coco verde com folhas de hortelã quinadas e em seguida adoçada com mel; vinho tinto licoroso; raízes e ervas; 1 kg de canjica amarela levemente aferventada em água mineral, escorrida e depois regada com mel; flores do campo; 7 velas verde-escuro, e 7 magenta (ou vermelhas); 2 folhas de bananeira; um pedaço de tecido de cor magenta (ou vermelho) e outro, do mesmo tamanho, na cor verde escuro. Local para a oferenda: a beira da mata.
Preparação: Separar todo o material e elevar o pensamento à Divina Mãe Obá, pedindo que nos dê sua licença e sua bênção para o que vamos fazer.
Montagem: Estender os panos na terra, em forma de estrela (o magenta em cima do verde) e sobre eles abrir as folhas de bananeira. Dispor os elementos sobre estas folhas, tendo os panos embaixo.
Despejar a água de coco com hortelã e mel dentro do coco e colocá-lo no centro da oferenda.
Rodear o coco com a canjica amarela. Em volta, distribuir as raízes e as demais ervas.
Fazer novo círculo, agora com as flores.
Por fora da oferenda montada, firmar as velas, alternando 1 verde e 1 magenta.
Circular tudo com o vinho licoroso, despejando-o com a mão direita sobre a terra e saudando a Divina Mãe Obá: “Akirô Obá-Yê!” Dar 3 voltas sobre a oferenda, no sentido horário, derramando o vinho e fazendo a saudação. Pedir a Obá que nos dê proteção, foco, concentração e objetividade na vida, e que Ela nos mostre sempre a verdade e nos livre dos enganos e dos enganadores.

Observação:
Conforme o ensinamento do professor Rubens Saraceni, sempre que fazemos oferenda à Mãe Obá também podemos levar um pedaço de carne bovina para saudar o Sr. Exu da Terra, que é o Guardião Planetário de Obá. Isso será feito antes de colocarmos a oferenda para Obá.
Então, chegando ao lugar escolhido na beira da mata, e à esquerda do ponto aonde iremos oferendar Obá, primeiro saudamos e pedimos licença ao Sr. Exu e à Senhora Pombagira guardiões daquele ponto de força, derramando pinga e sidra na terra e ali firmando 1 vela preta e 1 vela vermelha.
Damos 7 passos à frente, sempre à esquerda do local onde será colocada a oferenda de Obá e ali cavamos um buraco na terra, nele colocando a carne que oferecemos ao Sr. Exu Guardião Planetário da Terra.
Depois, cercamos o buraco com 7 velas pretas e 7 vermelhas, saudando o Sr. Exu Guardião Planetário da Terra. Podemos dizer: “Laroyê, Senhor Exu Guardião Planetário da Terra! Exu Guardião da Terra é mojubá!” Apenas o saudamos, em sinal de respeito, NÃO fazemos pedido algum a Ele, pois é um Guardião Planetário!

Feito isto, damos 7 passos à frente e à direita, para então montar a oferenda de Mãe Obá.

Alguns procedimentos para saudar Mãe Obá:

a) Colocar um pouco de água mineral nas mãos e elevar o pensamento à Mãe Obá. Derramar 3 vezes um pouco de água no chão, com respeito e reverência,  dizendo: “Akirô Oba-Yê” (nas 3 vezes). Esta saudação funciona como um mantra e significa: “Eu saúdo o Seu Conhecimento, Senhora da Terra!”; ou: “Eu saúdo a Terra, Senhora do Conhecimento!“ Isso pode ser feito também no Terreiro, na frente do Altar.

b) Colocar na frente do nosso Altar doméstico uma bacia de ágata (ou louça branca) com água mineral e hortelã fresca quinada (picada com as mãos) e macerada (deixada em repouso na água por algumas horas). Ofertar e consagrar à Mãe Obá, pedindo amparo, proteção, firmeza e concentração nos objetivos. No Terreiro, isso é feito na frente do Altar.

c) Colocar na frente do Altar (doméstico, ou então do Terreiro), com a mesma finalidade, uma tigela branca (ou alguidar) com terra vegetal e acender na terra 1 vela para Mãe Obá, pedindo bênçãos, proteção e concentração (foco, objetividade na vida).

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE OBÁ

No positivo: São pessoas lutadoras, bravas, muito zelosas com seus pertences, dedicadas e muitas vezes ingênuas, principalmente em relação ao amor e às amizades.
Humildes, resignadas, esperançosas, boas ouvintes e conselheiras, são capazes de dar o próprio pão a alguém que não tenha nada para comer.
São pessoas de grande valor e dedicação e tendem a alcançar seus ideais.
Um tanto agressivas, às vezes são pouco compreendidas.
Gostam das coisas práticas, apreciam a vida doméstica e a segurança do lar
Muito reservadas com suas amizades, preferem não falar de si mesmas e desconfiam ao primeiro sinal de alerta interior.
Não gostam de pessoas soberbas, arrogantes e vaidosas, nem de lugares ou reuniões agitados e de conversas vazias e vulgares.
No negativo: São intrigantes, ciumentas, ficam remoendo uma ofensa recebida, são cruéis e traiçoeiras e se vingam na primeira oportunidade que surgir.
Amaci: água de rio com pétalas de rosa branca e folhas de alecrim maceradas e curtidas por 24 horas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ALGUMAS DIVINDADES ASSEMELHADAS A OBÁ

Deméter- divindade grega das colheitas, da lavoura e da fertilidade do solo, que ensinava a arar a terra e a semear o trigo. (Entre os romanos é Ceres, filha de Cronos e Réia.)

Bona Dea- divindade romana da terra e da fertilidade, a “boa deusa” que traz a abundância de alimentos.

Cibele- divindade romana da terra, a “Magna Mater”, a Grande Mãe Terra, senhora da vegetação e da fertilidade.

Minerva- divindade romana e etrusca, cujo nome deriva de “mente”. Regia a inteligência, a criatividade, a sabedoria, as habilidades domésticas e os trabalhos guiados pela mente.

Tari Pennu- divindade hindu da terra, da fertilidade e das boas colheitas.

Nisaba- divindade sumeriana das artes do escriba, protetora das escolas, dos professores
e estudantes. Também protegia a agricultura e a vegetação.

Zamyaz- divindade persa da terra, dos grãos e da fertilidade.

Armait- divindade persa no panteão do Zoroastrismo, deusa da sabedoria e Senhora da Terra.

Erce- divindade eslava da terra, protetora dos campos e plantações. Recebia oferendas de leite, mel, vinho e fubá, despejados nos campos e nos cantos da propriedade.

Uke-Mochi-no-Kami- divindade japonesa da agricultura e dos alimentos. Também é mãe da divindade dos brotos de arroz (Waka-Saname-no-Kame) e juntos são responsáveis pela fertilidade da terra, recebendo oferendas de arroz e brotos.

Ma Emma- divindade estoniana, a Mãe Terra. Recebia oferendas de leite, manteiga e lã, ao pé de árvores velhas ou sobre lajes.

Pachamama, Divindade inca da terra. É a Mãe-Terra, a quem se fazem oferendas para obter boas colheitas. Senhora das montanhas, rochas e planícies.

LENDAS DE OBÁ

1 - Obá luta com Ogum
Obá era uma mulher cheia de vigor e coragem, não temia ninguém no mundo. Seu maior prazer era lutar; e Obá venceu Oxalá, Oxóssi, Orumilá e Oxumarê e ainda desafiou Obaluayê e Exu.
Chegou a vez de Ogum!  Mas Ogum teve o cuidado de consultar Ifá, antes da luta. Então, preparou a oferenda que lhe fora indicada: muitas espigas de milho e muitos quiabos, tudo pisado num pilão até virar uma massa viscosa e escorregadia.
Na hora marcada, Obá e Ogum se enfrentaram. No inicio, Obá parecia dominar a situação. Mas Ogum recuou em direção ao lugar da oferenda. E Obá pisou na pasta viscosa e escorregou.
Ogum aproveitou para derrubá-la. Tomou-a ali mesmo e se tornou o primeiro marido de Obá.
Essa lenda destaca a qualidade guerreira de Obá e a sua determinação e coragem.
Obá venceu Oxalá, Oxóssi, Orumilá e Oxumarê, também desafiando Obaluayê e Exu, porque nenhum deles é Orixá guerreiro. Isso destaca que Obá é a guerreira.
Mas no final da lenda fica bem claro que o grande guerreiro é Ogum, cujo nome quer dizer justamente “Senhor da guerra”. Porque Ogum foi o único a vencer Obá e o primeiro a tomá-la como esposa. Isso significa também que Ogum está unido a Obá, ou seja, que a atuação de Obá é conjugada (“casada”) com a atuação da Lei Divina e tem o amparo da Lei Divina. Este aspecto sinaliza para um ponto importante: as nossas “lutas” precisam estar sob o amparo da Lei Divina.
Por outro lado, embora sendo um grande guerreiro, Ogum cuidou de fazer uma oferenda antes de ir para a luta com Obá e por isso obteve a vitória. Ou seja, Ogum reverenciou o Sagrado antes de ir para a luta. Mesmo sendo o Senhor da guerra, Ogum teve esse cuidado e respeito. E isto reforça o sentido das oferendas no campo religioso: o de um pedido de licença e de amparo do Sagrado, antes de se fazer qualquer coisa.

2 - Obá luta com Oxum
Mais tarde, Obá tornou-se a terceira mulher de Xangô, por ser forte e corajosa.
A primeira mulher de Xangô foi Iansã, que era bela e fascinante. A segunda foi Oxum, coquete e vaidosa.
Uma rivalidade logo se estabeleceu entre Obá e Oxum. Ambas disputavam a preferência do amor de Xangô. E Obá tentava descobrir o segredo das comidas que Oxum preparava para Xangô, e que tanto o agradavam.
Oxum decidiu montar uma armadilha para Obá: convidou-a para acompanhar a preparação de um prato que, segundo ela, era o preferido de Xangô.
Obá chegou na hora combinada.
Oxum usava um lenço amarrado à cabeça, que escondia suas orelhas. Preparava uma sopa para Xangô, na qual se viam dois cogumelos flutuando na superfície do caldo. Oxum convenceu Obá de que os cogumelos eram as suas orelhas, ingrediente essencial da receita. Xangô veio em seguida e se deliciou com a sopa.
Na semana seguinte, foi a vez de Obá cuidar de Xangô. Ela decidiu seguir a “receita” de Oxum. E colocou sua orelha esquerda no preparo.
Xangô ficou horrorizado ao ver que Obá cortara uma das orelhas e achou repugnante a comida.
Neste momento, Oxum chegou e retirou o lenço, revelando que suas orelhas estavam intactas. Furiosa, Obá precipitou-se sobre Oxum. Uma verdadeira luta se seguiu.
Enraivecido, Xangô trovejou sua fúria contra as duas.
Apavoradas, Oxum e Obá fugiram e se transformaram em rios. E até hoje as águas destes rios são tumultuadas, no lugar de sua confluência, como lembrança daquela disputa.
Essa lenda destaca vários aspectos:
Primeiro, que no campo do amor ninguém vence Oxum. Porque Oxum representa o Amor Divino.
Depois, mostra a determinação de Obá: para alcançar seu objetivo, Ela “cortou uma orelha”, isto é, não mediu esforços. Claro que não se pode levar isso ao pé da letra e querer aplicar em nossa vida, pois seria chegar ao extremo do extremo... As lendas procuram exaltar as Qualidades dos Orixás, isso é o que precisamos observar e compreender.
Finalmente, vem o destaque para Xangô como representante do equilíbrio da Justiça e da razão, que se “enfurece” com as duas por agirem de forma irracional e usarem de artimanhas para envolvê-lo. Xangô põe um ponto final na situação, aparando as arestas da irracionalidade no campo do amor e dos relacionamentos: os excessos emocionais de Obá e de Oxum transbordam ou são “descarregados”, formando dois rios de águas turbulentas... Vale dizer, Xangô é o grande equilibrador.
Essa lenda faz pensar ainda sobre outra questão: No Candomblé, quando incorpora em suas filhas, geralmente Obá leva uma das mãos na direção da orelha esquerda. Gesto que seria para cobrir o defeito, a falta da orelha cortada, segundo respeitável tradição.
Agora, se lembrarmos, de acordo com a tradição africana, que Obá “guarda o lado esquerdo” (Osì), que é o lado do coração, podemos talvez entender que Ela está atuando neste sentido: guardar o lado esquerdo. Inclusive, na dança do Orixá, a mão é projetada um pouco para trás, próxima ou na direção da abertura posterior do chakra frontal, que é o chakra regido pelo Trono do Conhecimento. O chakra frontal se abre para frente e para trás. Na abertura da frente, Oxóssi está irradiando o Conhecimento equilibrado. Na abertura posterior do frontal, Obá atua para corrigir excessos e para dar amparo a quem precisa de foco e concentração. Com certeza, aquele gesto tem muitos significados. Pois as lendas têm vasto conteúdo, revelam parte da extraordinária riqueza cultural dos Povos da Mãe África, de quem muito recebemos.